Porque é que a pergunta “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?” está desatualizada?

Atualmente, a questão que mais parece importar é “Quem traz mais lucro: o ovo ou a galinha?”

Créditos fotográficos (imagem de capa) © Human Cruelties

2 mil milhões de ovos foram consumidos, apenas no ano de 2021 no nosso país, o que significa que cada português consumiu, em média, 182 ovos no referido ano: 3,5 ovos por semana, meio ovo por dia. Atualmente, a galinha põe 1900% mais ovos do que na década de 40.

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“A galinha põe o ovo e a(o) (teu nome) papa todo”... Quem não cresceu a ouvir este cântico que pais e avós usavam para nos distrair e entreter? Sem nunca se questionarem porque é que nós comemos o ovo que o corpo da galinha põe. Nem nos questionamos o que ela passa para o pôr. Essa parte nunca fará parte de nenhum cântico infantil! A banda sonora da nossa infância tolda a nossa visão crítica acerca do que aprendemos como tão normal e até natural, enquanto crianças. Ninguém sabe quem nasceu primeiro, ovo ou galinha, mas sabemos bem como nascem hoje em dia…

1. Mas se a galinha põe ovos, qual o problema em comê-los?

Pouca é a informação partilhada acerca da indústria dos ovos. Aliás, as pessoas tendem a acreditar que o consumo de ovos não prejudica a galinha, afinal de contas, pôr ovos faz parte da sua natureza, certo? Na verdade, não é bem assim.

Sim, seria natural a galinha pôr ovos, se esse número não ultrapassasse o limite máximo de 15 por ano, como faziam os seus antepassados. Seria também natural a galinha viver entre 15 a 30 anos, livre e saudável.

Porém, após largos anos de modificação genética, a indústria levou estas aves ao seu limite e hoje uma galinha poedeira pode pôr até 300 ovos por ano, tendo uma esperança média de vida de apenas 2 anos.

Pré-seleção genéticaPós-seleção genética
Máximo 15 ovos por anoCerca de 300 ovos por anos
Aumento de 1900% na postura de ovos anual, por galinha

Nada disto é natural para o seu corpo que, ao longo de dois curtos anos de vida, se torna débil, doente e demasiado fraco para continuar a cumprir as exigências da indústria que acaba por conduzir as aves para o abate


2. E os machos?

Se não ficarmos convencidos com este argumento, o próximo certamente não nos poderá deixar indiferentes. Para a indústria dos ovos, os machos não têm qualquer valor económico, pois não põem ovos

Então, como resolver o problema quando nascem pintos machos?

A lei estipula que estes recém nascidos, vistos como desperdícios e restos da produção, sejam direcionados para uma máquina que os irá triturar vivos.

Créditos fotográficos © Human Cruelties

O resultado gerado dessa trituração é posteriormente aproveitado para rações. E eis que surge uma nova questão que muitos colocam, na esperança de encontrar uma solução mais justa neste negócio ou, pelo menos, menos cruel: Porque não aproveitar os pintos machos que nascem para explorar na indústria do frango? 

Ora, isso seria prolongar o seu sofrimento até ao abate em semanas e, de qualquer forma, isto não se realiza porque esta espécie de galinha é geneticamente selecionada para ser eficaz na postura de ovos, e não é eficaz para a indústria do frango. É mais pequena e de crescimento mais lento, e tudo isso a indústria do frango também dispensa.


3. Qualidade de vida

Outro factor que nos leva a questionar o quão cruelty-free é o consumo de ovos prende-se com as condições em que estas aves vivem durante todo o processo de produção. 

Confinadas em gaiolas, com o bico cortado sem anestesia, pisando ferro, sem ter onde debicar ou responder a qualquer um dos seus instintos naturais, estas galinhas podem apenas contar com 750 cm2 de espaço disponível para se movimentar.

Mas o que significa 750 cm2 de espaço? Façamos um desenho:

Como podemos acreditar que estes animais tenham qualidade de vida? Que o que elas vivem é o que lhes é natural, se até a luz que as ilumina é artificial?

As galinhas poedeiras têm luz artificial acesa durante várias horas seguidas (podendo ir até às 16h, dependendo do ciclo de produção), para incentivar a intensa postura de ovos.

“A duração do dia deve aumentar entre 15 minutos e 1 hora, conforme as necessidades do bando, até que atinjam as 16 horas de luz diárias”.

Iluminação artificial (pavilhões Zêzerovo)

Na produção em jaula, as galinhas contam com 12 horas de luz diárias enquanto que, na produção no solo contam com 10 horas de luz diárias. As 16 horas de luz devem ser atingidas antes do pico de produção do bando [1].

Durante o período de produção, a duração da luz e a intensidade da luz nunca é diminuída, para não afetar negativamente a produção e seu respectivo rendimento.

A acrescentar a tudo isto, temos as fraturas recorrentes. Um estudo radiológico europeu, realizado em 2020 [2] efetuado em galinhas poedeiras, mostra-nos que uma impressionante maioria de 99% das aves estudadas tinham pelo menos uma lesão da quilha do esterno e 97% apresentaram fratura na mesma. As razões apontadas são as colisões dentro dos sistemas de alojamento, a seleção genética e a significativa diminuição de cálcio nos ossos (agravada com a quantidade de ovos posta).

Créditos fotográficos © Human Cruelties


4. Então, vou consumir apenas os ovos das galinhas dos meus vizinhos…

Mas as dúvidas permanecem… E se? E se eu apenas consumir ovos de galinhas criadas ao ar livre? Ou das minhas próprias galinhas? Esta é outra questão que levanta algumas dúvidas entre os consumidores.

Se as galinhas que temos no nosso jardim foram compradas, então a probabilidade de estarmos a perpetuar e a apoiar a indústria indiretamente é alta, porque quem as vendeu está a lucrar com a sua exploração. E permanece a questão: estão a vender galinhas, mas… O que foi feito aos galos?

E, não esqueçamos que, atualmente, a sua genética está tão alterada que mesmo as galinhas que temos no nosso quintal já sofreram muitas alterações no corpo, o que faz com que a quantidade de ovos que vão pôr, provavelmente, continue a não ser natural.

O ovo produzido pela galinha necessita de uma enorme quantidade de cálcio. Sempre que a galinha põe um ovo, perde cálcio para a formação da casca.


5. Galinhas dos ovos de ouro acabam sempre no matadouro…

Créditos fotográficos © Human Cruelties

Além disso, sendo criada ao ar livre, ou em sistema biológico, torna mais legítimo o seu consumo? É certo que galinhas em gaiolas não têm acesso a terra, a espaço suficiente para se movimentar confortavelmente, nem mesmo a ar puro. Mas significa isto que é moral e eticamente melhor consumir as galinhas criadas ao ar livre? 

Independentemente do local onde são criadas, todas estas aves têm o mesmo destino: o matadouro.

A morte será igual para todas. A diferença será que, para a galinha criada em gaiola, a morte pode ser vista até como um alívio à vida de sofrimento que sempre conheceu. Em relação à galinha criada ao ar livre, não estaremos nós, enquanto consumidores, a passar-lhe a mensagem de que já foi feliz o suficiente?

Se refletirmos acerca do assunto, iremos perceber que estamos apenas a encobrir o facto de matarmos outros seres, com a nossa falsa generosidade em deixá-lo viver por mais alguns dias ao ar livre, enquanto poderia até viver largos anos. Não estaremos apenas a tentar enganar a nós mesmos?

Estamos a aliviar a nossa consciência mas nunca o sofrimento e a morte cruel e desnecessária de milhões.


6. O que posso então fazer?

Podem começar por pesquisar alternativas ao consumo de ovos.

Algo que podemos fazer é devolver o ovo à galinha para que ela própria o consuma, ajudando na reposição de nutrientes que ela perdeu para o pôr. Confuso? Sim, pode parecer um pouco confuso e muitos consideram estranho e contra natura. Contudo, não será mais estranho ou não natural, sermos nós a comer algo que não nos pertence?

Fomos nós humanos que sujeitamos as galinhas a todos estes processos e, se ela põe tantos ovos hoje em dia, é devido à nossa atuação. 

O mínimo que podemos fazer é deixar que ela consiga repor o seu cálcio debicando o seu ovo. Quantos mais ovos lhe tirarmos, menos cálcio ingere e estaremos a encurtar a sua vida e a permitir que a osteoporose avance. 

Sabias que

O sal negro tem um sabor muito semelhante ao ovo? E não depende da produtividade e exploração de nenhum animal.

Sabe mais aqui:

Vídeo:

Excerto do documentário "Dominion"

Play Video

Créditos fotográficos © Farm Transparency Project / Dominion

Texto da petição:

Pelo fim do abate de pintos machos

Reconhecemos que esta prática é cruel, inaceitável e desumana, devendo ser legalmente proibida. Consideramos ainda que tal método não se justifica e não é coerente com as políticas de Bem-Estar Animal que a indústria e a legislação portuguesa dizem implementar. 

Queremos ver esta prática abolida e incentivos à investigação de tecnologias mais compassivas na indústria.

Atenciosamente,