Velocidade da linha de abate

Quanto mais rápida a linha de abate, mais frangos são abatidos. E quanto mais frangos produzidos, mais exigência sobre as linhas de abate. É um ciclo vicioso que teima em não parar.

Créditos fotográficos (imagem de capa) © Human Cruelties

1. O exemplo americano

Um estudo publicado em 2015 [1], acerca das condições de trabalho nos matadouros americanos, diz-nos que:

“Quanto maior a velocidade da linha, ou quanto menos trabalhadores na linha, mais rápido cada trabalhador deve operar. Os trabalhadores relatam a média entre 35 e 45 aves por minuto, o que significa que eles processam um frango a cada dois segundos – mais de 2.000 galinhas por hora, e mais de 14.000 galinhas por dia. (…)”

A indústria tem pressionado para aumentar a velocidade da linha ao longo dos anos.

O limite superior da velocidade da linha aumentou de 70 aves por minuto em 1979, para 91 em 1999, para 140 hoje (2015).

Ainda assim, a indústria continua à procura de tornar a linha ainda mais rápida: o National Chicken Council (a maior associação comercial do setor) recentemente apoiou fortemente uma proposta do USDA (United States Department of Agriculture) para aumentar a velocidade para 175 aves por minuto, um aumento de 25 por cento”.

Embora este estudo se centre na indústria americana, sabemos que a demanda por carne de frango é comum na Europa e não pára de aumentar. Todos estes factores, não abonam à credibilidade da aplicação das regras de bem-estar animal.


2. O exemplo português na exploração suína

Não é fácil entrar nestas fortalezas de produção, sendo raros os dados encontrados por testemunhos internos.

Em Portugal, num estudo realizado pelo sociólogo Rui Pedro Fonseca (2018) [2], referente à linha de abate (de suínos e bovinos) num específico matadouro (anónimo), podemos ler que “o tempo que os animais permanecem vivos (na linha) pode durar minutos, e o tempo que cada um deles passa com cada trabalhador pode durar segundos”. Acrescenta ainda que:

 “Vigora, portanto, com uma doutrina essencialmente comercial, almejando a obtenção de uma elevada saída de produtos (de origem animal) pelo período de tempo mais curto possível — o que envolve uma elevada aceleração do abate e do processamento de animais.”

Rui Pedro Fonseca

No matadouro observado para a realização do artigo acima, a linha de abate conta com 20 trabalhadores que, no intervalo de 1h, podem abater até 120 porcos. 20 pessoas que se estendem pela linha de abate, onde se cessam duas vidas por minuto, apenas neste matadouro. É necessário perceber que, destes 20 funcionários, apenas 2 ou 3 fazem a sangria do animal, ou seja, apenas cerca de 10% dos operários na linha de abate cumprem a função literal de matar. Os restantes 90% tratam do atordoamento, desmantelamento da carcaça, limpeza, entre outras funções. Podemos, então, concluir que dois funcionários neste matadouro matam dois porcos por minuto. 

O sociólogo afirma que a pressão do trabalho provoca “dores crónicas nas mãos, pulsos, braços, ombros e costas”. Um dos trabalhadores entrevistados no estudo acrescenta outros episódios: “Uma vez a máquina fugiu a um homem e ele cortou um dedo. Outro homem está em casa por ter as costas todas desfeitas, por andar a cortar durante tantos anos”.

Se isto acontece num matadouro que abate animais de grande porte, como será a velocidade numa linha de abate de aves?

Note-se que, sendo animais mais pequenos e mais leves, será mais fácil para o trabalhador pegar e manusear os animais, pendurá-los por ganchos logo à entrada da linha, onde os tapetes rolantes não páram e tratam do restante processo. Basicamente, os animais vão rolando, sem parar na linha, passando pelos vários trabalhadores que os esperam para cumprir a função do seu posto. Os trabalhadores têm de estar preparados e se adaptar à velocidade a que as aves vão chegando e, se passar uma ou outra ave, por determinado posto, em que o trabalhador não tenha conseguido cumprir a função, quem irá sofrer as dores e as consequências, será o animal. Este cenário é-nos confirmado através de uma médica veterinária que, enquanto estudava, visitou algumas explorações e matadouros:

“Tudo isto acontece a uma grande velocidade, são milhares os animais abatidos por dia, o que significa que não há tempo para parar ou abrandar a linha caso se detecte algo que está menos bem. Isso também influencia o trato dos animais, que são agarrados e colocados na linha de forma pouco cuidada e o mais rápido possível”.

Aluna de Medicina Veterinária

3. O exemplo de empresas portuguesas

“Nos matadouros, aquilo é horrível. São milhares nas linhas de abate. São pendurados pelas patas e a linha está sempre a correr. Olhas para cima e só vês milhares de animais constantemente a passar na linha. São imensos corredores.

Uma das imagens que mais me impressionou foi espreitar numa sala alta mas cheia de linhas de carcaças de aves penduradas e tudo a correr a uma velocidade incrível…!

Aluna de Medicina Veterinária

No site da empresa Lusiaves, podemos ler que o centro de abate na Figueira da Foz, tem capacidade para abater 8 500 aves por hora [4]. Também num relatório de estágio de uma aluna da Engenharia Alimentar da Universidade de Coimbra, de 2016, podemos ler um pouco mais acerca da linha de abate num matadouro da empresa Jerónimo Martins: “O matadouro emprega cerca de 80 colaboradores e apresenta uma capacidade de abate por hora de 6 000 frangos industriais, 3 000 galinhas poedeiras e 1 500 frangos do campo e galinhas/galos reprodutores” [5]. Ou seja, 10.500 animais abatidos por hora, 175 por minuto.

No final de um turno de 8h de trabalho, podem ser processadas 84 mil aves, só neste matadouro, apenas num dia da semana.

Créditos fotográficos © Human Cruelties

Vídeo:

Excerto do documentário "Dominion"

Play Video

Créditos fotográficos © Farm Transparency Project / Dominion

Texto da petição:

Pelo fim do abate de pintos machos

Reconhecemos que esta prática é cruel, inaceitável e desumana, devendo ser legalmente proibida. Consideramos ainda que tal método não se justifica e não é coerente com as políticas de Bem-Estar Animal que a indústria e a legislação portuguesa dizem implementar. 

Queremos ver esta prática abolida e incentivos à investigação de tecnologias mais compassivas na indústria.

Atenciosamente,