Portugal: relatos de práticas horríveis em explorações avícolas com imagens chocantes na televisão nacional

Na semana passada, o programa “A Prova dos Factos”, da RTP1, teve acesso às imagens de um grupo de investigadores internacionais que conseguiu entrar em 40 explorações de frangos e ovos em Portugal, de norte a sul, captando imagens aterradoras que demonstram práticas ilegais e altamente cruéis.

Imagens chocantes em plena televisão nacional

As imagens e reportagens registadas e difundidas reflectem grandes dúvidas éticas e legais sobre procedimentos que põem em causa o bem-estar animal, mas também a saúde dos consumidores. A DGAV, entidade nacional que regula o sector, afirmou que um terço dos frangos consumidos em Portugal foram medicados com antibióticos e que 95% deles receberam pelo menos algum tipo de medicação antes de chegarem ao mercado, sendo que os consumidores podem não ser informados desta administração na rotulagem quando compram este produto.

Outro grande problema detectado pela violência das imagens é o manuseamento destas aves durante o transporte. São agarradas pelas pernas e atiradas para dentro de caixotes sem qualquer preocupação com o seu bem-estar. 

Também é possível ver pintos nascidos no próprio dia a serem carregados e atirados violentamente das caixas para o chão, e até mesmo frangos em decomposição ao lado de outros que estão vivos. Se não forem retirados atempadamente, isto leva a comportamentos canibais e à transmissão de doenças entre os frangos, que ingerem micotoxinas dos cadáveres em decomposição e as levam diretamente aos consumidores, associadas a vários problemas de saúde nos seres humanos.

As empresas garantem total segurança na reportagem em causa, mas a verdade é que os áudios dos próprios trabalhadores mostram uma realidade diferente. A lei portuguesa exige que os animais tenham pelo menos 6 horas no escuro para descansar, mas estes trabalhadores revelam que os frangos não dormem, passando 24 horas com as luzes acesas para aumentar a engorda.

O peso das galinhas aumentou quase 400% nas últimas décadas, apesar de a alimentação ter sido reduzida para metade, o que levou a várias malformações e ao facto de não conseguirem suportar o seu próprio peso – nas imagens vêem-se galinhas com as pernas partidas por isso mesmo.

Estamos a falar de frangos que não chegam a viver 30 dias antes de chegarem ao mercado, e dois milhões de aves nunca são consumidas por não estarem nas melhores condições, o que acentua ainda mais a ineficiência e insustentabilidade deste sector.

Quanto à indústria dos ovos, as práticas inadequadas e cruéis repetem-se: 57% das galinhas poedeiras ainda estão em gaiolas. Sobrelotadas e sem espaço entre elas, não podem realizar os seus comportamentos naturais, como abrir as asas ou debicar o chão. Além disso, os bicos são cortados nas primeiras horas de vida para que os animais não se ataquem uns aos outros devido ao stress de estarem fechados, algo que a indústria não considera antinatural, embora vá contra todos os comportamentos naturais destas aves.

Esta reportagem também abordou o problema do abate de pintos macho. O projeto Abrir de Asas, que luta contra estas violações do bem-estar animal no sector avícola em Portugal, está a realizar uma petição para pôr fim a esta prática horrenda no sector. Na Alemanha e em França, por exemplo, esta prática já não é permitida, sendo o ovo previamente sexado e os machos não sendo chocados na indústria, mas ainda não existe uma legislação uniformizada a nível europeu. A petição já conta com mais de cinco mil assinaturas e são necessárias 7.500 assinaturas para que seja submetida a votação no parlamento nacional.

Tanto a DGAV como a Ordem dos Médicos Veterinários foram contactadas para prestarem declarações para esta reportagem, tendo ambas recusado.

Veja aqui a reportagem completa:

 

Vídeo:

Excerto do documentário "Dominion"

Play Video

Créditos fotográficos © Farm Transparency Project / Dominion

Texto da petição:

Pelo fim do abate de pintos machos

Reconhecemos que esta prática é cruel, inaceitável e desumana, devendo ser legalmente proibida. Consideramos ainda que tal método não se justifica e não é coerente com as políticas de Bem-Estar Animal que a indústria e a legislação portuguesa dizem implementar. 

Queremos ver esta prática abolida e incentivos à investigação de tecnologias mais compassivas na indústria.

Atenciosamente,