Afinal, sem ovos também se fazem omeletes

Beatriz Costa, Ema Camacho e Lígia Cruz são as mentes brilhantes por trás do ovo que não sai da galinha. Atualmente alunas do 2º ano de mestrado na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, as três colegas juntaram-se para revolucionar aquele que vem sendo um dado adquirido há tantos anos: sem ovos, não se fazem omeletes.

Ora, com o notEggo, não só é possível fazer omeletes sem a exploração da galinha, como também nos podemos deliciar com “ovos” mexidos e estrelados, mantendo o sabor que nos habituamos durante anos de consumo.

A gema é perfeita, passando por um processo de esferificação, só é destruída quando o garfo a pressiona, esvaziando todo o líquido do seu interior, como se de um ovo de galinha se tratasse. Feita à base de tremoço, batata doce e cenoura, as jovens criadoras, tiveram toda a atenção com as cores do produto, procurando fontes orgânicas para a formulação do ovo vegetal.

A clara, cuja receita beneficia da junção de farinha de arroz, amido de tapioca e creme de soja, também não desilude. A acrescentar, o sal negro.

O notEggo é muito mais do que um novo produto num mercado cada vez mais direcionado para alternativas vegetais. É um wake up call para mostrar a todos os consumidores que os sabores são criados por nós e que ser vegano ou vegetariano não limita ninguém a desfrutar de uma refeição saborosa. Diz ainda Ema Camacho que o nome da marca é muito mais que uma alusão ao ovo que não é ovo, mas um uma forma de nos desprendermos do nosso próprio ego nas nossas escolhas.

Somos muito mais do que indivíduos que exploram outros para seu próprio proveito. Somos um todo que vive em estreita dependência no meio envolvente.

Para seguidores de qualquer regime alimentar, o notEggo surge como uma alternativa consciente, sem crueldade nem exploração animal.

A equipa Abrir de Asas (ADA) esteve à conversa com as alunas Ema e Beatriz, enquanto Lígia preparava um menu degustação do produto que, diga-se de passagem, a equipa aprovou com muita facilidade.


1. [ADA] Após a receção do desafio para criação de um produto inovador, porque optaram pelo ovo?

[Beatriz] A ideia surgiu como uma curiosidade. Nós pensamos em produtos que se calhar faltassem alternativas no mercado. Surgiu-nos a ideia de um ovo, que se calhar era engraçado as pessoas conseguirem na mesma comer, mesmo não sendo ovo de galinha e que pudesse ser algo interessante para o mercado também.

Sabemos que noutros países já existem alternativas mas em Portugal o acesso é muito complicado e foi um desafio e até uma curiosidade para nós, caso corresse bem, como é que seria.


2. Mas alguma de vocês é vegetariana ou vegana, ou conhecem alguém próximo que seja que vos tenha inspirado para esta ideia?

[Ema] Nós as duas (Beatriz e Ema) não consumimos carne e também estamos um pouco mais conscientes para esta temática. Daí também ter surgido a ideia de fazer o ovo.


3. Ouvimos dizer que gostavam muito de francesinhas, agora já comem francesinha com ovo?

[Ema] Sim, de facto uma pessoa acaba por pedir algumas coisas e vê-se sempre limitada, como é o caso da francesinha. Quando alguém pede uma francesinha vem sempre com ovo e se não tiver, não é uma francesinha, na minha opinião.

[Beatriz] E portanto a NotEggo também surge para dar mais versatilidade às refeições. Mesmo em restauração, acho que às vezes há muita limitação nos pratos que pensam em fazer e se calhar um produto destes podia criar mais alternativas.


4. Como é que chegaram ao resultado? Como é feito e como mantém a sua frescura? Qual a validade?

[Ema] Este ainda é o protótipo, ainda temos mais testes para fazer. 

[Beatriz] Sim, ainda há imensos testes que nós temos e gostaríamos de fazer. O nosso tempo de vida para este produto é de 25 dias e é refrigerado, mas ainda é algo que precisa de mais testes para assegurar a qualidade do produto durante esse período.

A formulação foi pensada para manter o produto mais orgânico possível, como as cores. Não queríamos estar a colocar nada artificial, queríamos que fosse tudo o mais orgânico possível. Em termos de fornecedores, também quisemos optar por fornecedores nacionais e de produção biológica. Tivemos muito cuidado com esse tipo de origem.

[Ema] E nós também tivemos cuidado com o nome: “notEggo”, que não é só uma referência ao ovo mas também ao ego, para aumentar a consciencialização e um desprendimento do ego que nós consideramos importante, principalmente nesta indústria dos ovos. Achamos que é importante consciencializar os consumidores, não só por estarmos a apresentar um ovo vegetal, mas também pela forma como comunicamos com o consumidor, desde a nossa embalagem, o nosso marketing, para mostrar que de facto existem outras alternativas e que há outro caminho que pode ser percorrido.

[Beatriz] E a ideia que preparamos para o notEggo era também de mostrar que o vegetarianismo não é uma coisa aborrecida, não é só comer legumes. A maior parte das pessoas tem uma ideia assim triste do que é o vegetarianismo e uma refeição vegetariana. Nós queremos desmistificar isso e dizer às pessoas que há uma série de outras alternativas e um mundo de oportunidades.


5. Quais são os planos para o futuro? O que falta para a sua comercialização?

[Beatriz] Agora faltam os tais testes ao produto. Assegurar que naqueles 25 dias o produto mantém o sabor e a qualidade que queremos levar aos consumidores. Em termos de embalagem, temos apenas um protótipo, nada feito industrialmente pois não conseguimos. Acreditamos que a receita está bem assim, o feedback que temos recebido tem sido bom, portanto agora são os testes.


6. Quando terminado o mestrado, criar um negócio faz parte dos vossos planos?

[Beatriz] Já temos algumas empresas interessadas neste produto e gostaríamos muito de desenvolvê-lo para o mercado. O nosso objetivo seria, daqui a um ano ou dois, o produto estar no mercado. Seria um orgulho e acredito que seria um produto que iria chamar a atenção de muita gente no mercado.

Vídeo:

Excerto do documentário "Dominion"

Play Video

Créditos fotográficos © Farm Transparency Project / Dominion

Texto da petição:

Pelo fim do abate de pintos machos

Reconhecemos que esta prática é cruel, inaceitável e desumana, devendo ser legalmente proibida. Consideramos ainda que tal método não se justifica e não é coerente com as políticas de Bem-Estar Animal que a indústria e a legislação portuguesa dizem implementar. 

Queremos ver esta prática abolida e incentivos à investigação de tecnologias mais compassivas na indústria.

Atenciosamente,